10/09/2021

Risco político leva a economia para o brejo, diz economista

Pautado sempre pela moderação, o economista Heron do Carmo, professor sênior da FEA/USP e um dos maiores especialistas em inflação do País, vê com muita preocupação o quadro atual da economia brasileira. Na sua avaliação, o Brasil está em estagflação. É uma situação que combina inflação especialmente elevada para os padrões pós-Plano Real com atividade econômica comprometida.

A vilã do momento, segundo Heron, é a crise institucional que se abateu sobre o País, o que piora o cenário econômico e da inflação. Esse fator se junta aos problemas que já vinham complicando o cenário de preços, como as altas dos alimentos e dos combustíveis e a crise hídrica, por exemplo.

Na análise do economista, se o País tivesse uma situação institucional tranquila, a expectativa seria de que a economia continuasse a sua retomada com a vacinação e a inflação recuaria pelo fato de os choques de oferta perderem força. No entanto, a instabilidade institucional muda o curso normal e põe em risco a atividade. "O que me preocupa particularmente é essa situação institucional pelo potencial que ela tem para agravar os problemas econômicos", alerta o especialista. A seguir os principais trechos da entrevista.
Como o sr. avalia o resultado da inflação de agosto?

Estamos vivendo uma fase de surpresa sempre para pior. Segundo o Boletim Focus (do Banco Central), estamos na 22.ª semana seguida de alta de inflação para a previsão deste ano. O resultado de alta de 0,87% do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) de agosto veio acima da previsão do mercado, de 0,70%. Teremos muito provavelmente a continuidade do processo de aumento da previsão de inflação. Essa instabilidade institucional está contribuindo para piorar a situação.

Qual é a sua previsão de inflação para este ano?

Se não acontecer nada muito diferente até o final do ano, acredito que o IPCA feche 2021 em torno de 8,5%, quase 1 ponto porcentual acima do que se tinha até então. Temos um cenário de incerteza internacional como consequência da pandemia e da tensão com a China e, no plano interno, uma situação de estresse institucional. Esse aumento da incerteza, da insegurança, normalmente leva a uma piora na inflação, uma piora da atividade econômica e a uma deterioração dos fundamentos. Além disso, temos um problema de conjuntura, de inflação alta e atividade menor para o próximo ano. O crescimento que se pensava entre 2,5% e 3%, pode ser bem menos. Por outro lado, tudo isso contribui para comprometer o fundamento fiscal, o que contrata a continuidade da crise para o futuro.
Vamos entrar em estagflação?

Estamos entrando em estagflação, com a economia crescendo pouco, provavelmente na faixa de 1%, em 2022. Para os padrões pós-Plano Real, estamos com uma inflação especialmente elevada com atividade econômica comprometida. A situação é preocupante. A inflação está se mantendo acima do previsto e deve se sustentar assim no próximo ano. A previsão do mercado está em torno de 4%. É pouco provável que a inflação de 2022 fique abaixo de 5%. Por ora, vejo inflação na faixa de 6%.